segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Feliz Ano Novo", Rubem Fonseca

Nunca dei muito valor aos autores nacionais. Não sei exatamente o motivo: se é um tipo de repulsa involuntária, se descaso ou simplesmente falta de publicidade ou preços acessíveis aos livros brasileiro. No fim, tudo não passa de desculpas esfarrapadas, eu sei. Por isso estou tentando reverter esse processo degenerativo.

Já ouvi o nome Rubem Fonseca uma dezena de vezes – o cara é um dinossauro da literatura brasileira e seus livros são muito bem vendidos e criticados, obrigado –, mas parei realmente para prestar atenção ao nome após uma entrevista da escritora do livro ‘Gonzos e Parafusos’, Paula Parisot. O repórter fez uma pergunta acerca da troca de Rubem da editora Companhia das Letras para a Record, uma fofoca literária que dizia que a autora era a culpada pela tal troca. Ela disse que não e nada mais a declarar. Mais tarde, durante o tal do ‘bate-bola-jogo-rápido’, o repórter pergunta a ela: Raymond Chandler ou Rubem Fonseca?, e ela, rindo, responde: alguma dúvida? Rubem Fonseca!

Aí está. Não, nunca li Raymond Chandler – uma deficiência que pretendo suprir o quanto antes –, mas sou fascinado pela estética noir e pelos romances policiais. Tal comparação atiçou meus neurônios para ler o tal Rubem Fonseca. Nunca tinha lido nada nacional que rodasse no tema da literatura policial, e como precisava ter uma ideia de como giram os personagens pelas marginais paulistas e calçadões cariocas, resolvi que seria uma boa ideia lê-lo.

Comprei o livro que agora tenho o prazer de resenhar, ‘Feliz Ano Novo’, juntamente com ‘Agosto’, do mesmo autor, ‘Ed Mort e outras histórias’, uma coletânea de contos de Luis Fernando Veríssimo e um outro que já não me recordo o nome, sobre a história de Zuzu Angel, todos rodando pelo tema policial. Resolvi ler ‘Feliz Ano Novo’ em primeiro lugar. Não posso dizer que me arrependi. Nem um pouco.

O livro é uma união de contos, uns maiores, outros menores, mas todos muito rápidos, transitando sobre temas um tanto quanto impactantes a primeira vista: logo no primeiro conto – que dá título ao livro – somos apresentados a um bando de ladrões que discute irrelevâncias antes de partir para algum assalto na véspera de ano novo. Logo segue-se a ação, com uma sequência final bastante, er... não há outra palavra: impactante.

O livro gira em torno de ladrões, prostitutas, homens mal-amados e incompreendidos, mulheres inconsequentes e amarguradas. Não há um continuum ou algo que ligue os contos além da imundície – seja ela literal ou subjetiva – onde os personagens se encontram mergulhados: sempre desesperançosos, sempre à beira de um colapso ou sem um tostão no bolso. Os contos são bruscos, um choque à pacificidade do dia a dia, uma chacoalhada nos nervos e nas opiniões sobre quem pensa que o mundo é um lugar colorido e bonito de se viver.

‘Feliz Ano Novo’ é um livro que deixa atrás de si marcas para quem lê: seja para quem mastiga cada conto e extrai dele todos os seus significados e simbolismos, seja para quem – como eu – lê apressadamente no ônibus, com fones no ouvido e pessoas conversando em todos os lados. Não creio que o livro tenha uma mensagem definida ou alguma lição de moral para ser passada, não acredito que seja sua função, mas creio que, mesmo involuntariamente, ele deixa nem que seja uma nota de rodapé no subconsciente da gente: ‘o mundo não é bonito, fique sabendo. Ele é um lugar cheio de dores e de gente pronta para te sacanear à mínima piscadela. Portanto, fique alerta’.

Um soco na boca do estômago, acho que essa é a melhor forma de tentar definir o livro ‘Feliz Ano Novo’. Não é à toa que se trata de um livro altamente lido e bem criticado. Vale a pena ler cada parágrafo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sobre minha ausência e Porto Alegre

Eu tinha a pretensão de escrever um post mais extenso antes da minha viagem a porto alegre - até o escrevi em uma lan house, mas infelizmente o arquivo foi sumariamente deletado devido a um erro no computador defeituoso.

Agora não tenho muito tempo, então tentarei ser o mais breve possível :)

Estou ausente da internet durante esses dias por conta de um problema técnico e muito simples: meu computador quebrou e não tive tempo de levá-lo ao conserto. Depois inventei viajar para Porto Alegre: decidi viajar na segunda e o ônibus saía na terça.

Vim participar do EREBD: Encontro Regional de Biblioteconomia e Documentação, que está acontecendo até sábado na UFRGS para todos os estudantes de biblioteconomia do Brasil. Entre banheiros químicos mal-cheirosos, desconforto por dormir em uma quadra sobre um colchão inflável e ter que tomar banho em um contâiner, estou adorando a cidade. Faz frio e chove muito, muito mesmo, mas ainda assim gosto. É uma cidade um tanto quanto cinza, com táxis vermelhos (vermelhos!) e um sotaque ao mesmo tempo gostoso de ouvir e estranho de tentar reproduzir.

Bom, atualizações feitas, tenho que ir. Meu tempo está acabando e ainda tenho que jantar antes que o refeitório feche. Boa noite!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Ela Voltou

Passa tanto tempo que a gente acaba se esquecendo, mas isso é normal, mazelas do tempo - que passa como raio, sem dó nem piedade. Quando a gente vê, já não se vê faz uns anos; quando a gente percebe, não se entende mais. Parece que quando nos olhamos somos só dois estranhos que se esbarram pela rua por puro acaso do destino.

Destino arteiro, de querer lembrar o que passou; de imputar um bocado de culpa pela falta de procura; de fazer lembrar um passado que não volta. Cacete, esse destino tinha que me trazer você de volta?! Antes não trouxesse e estaria eu preocupado com outras coisas: com meus probleminhas cosmopolitas e meus novos amigos, com meus livros não lidos e com minhas músicas repetidas. Diacho, destino, porque me trouxe ela de volta?

domingo, 4 de abril de 2010

O Dia em Que Matei Minha Musa

Fazia sei lá quantos dias que eu não escrevia. Então, decidido a continuar o ofício masoquista de escritor amador – que dá pouco ou nenhum retorno ao trabalho árduo de pensar, repensar e duplipensar naquilo que se deve escrever –, sentei-me na cadeira, pronto para qualquer ideia que me viesse em mente.

Logo percebi que não havia nenhum assunto interessante sobre o qual abordar. Falar sobre o quê? Copa do mundo? Olimpíadas? Final do Big Brother? Relação Brasil-Irã? Nada daquilo me pareceu interessante o bastante, até porque todos já estavam falando sobre isso. O que eu poderia acrescentar?

Comecei a me irritar por tamanha improdutividade. Não que isso nunca tivesse me ocorrido antes – passo longos e ociosos períodos sem escrever uma palavra sequer, apenas olhando para o teto e cantarolando, pensando em não pensar e esperando qualquer inspiração divina me atingir como um raio e me obrigar a escrever –, mas eu nunca havia me sentido tão frustrado assim. Era como se o meu tão nobre ofício deixasse de ter importância, como se não-escrever fosse uma opção muito mais racional do que escrever para não ser lido.

“Problemas, Lucas?”, a minha musa me perguntou, aparecendo (finalmente!). Puxou uma cadeira e se sentou. Ela sempre aparece nesses momentos oportunos, e eu não nego a sua presença. Ela levantou as saias para cruzar as pernas, deixando à mostra aquele pequeno pedaço de erotismo que tanto me agradava. “Parece que as coisas não estão indo tão bem”, ela disse.

“Não estão, Musa”, eu cocei o ouvido com a ponta do lápis, um hábito nojento e mal educado, mas ainda assim extremamente confortador e agradável. “De novo aquela mesma merda de sempre. E eu aqui me perguntando se o problema sou eu ou se você simplesmente está se tornando frígida”.

“Autch”, ela disse, sorrindo. “Você sabe tão bem quanto eu que não precisa ser tão rude assim”.

“E você sabe tão bem quanto eu que não precisa ser tão ausente assim. Você nunca me deixou na mão durante tanto tempo, Musa. O que está acontecendo?”

“Acho que eu finalmente percebi que não vale a pena continuar por aqui, te dando tanto apoio”, ela sempre sorria, como uma psicopata que não se preocupa com o impacto de suas palavras ou ações. “Quando eu estou aqui, pronta para você, pronta para te dar tudo o que tenho, você simplesmente me ignora. Diz que está com preguiça, que a ideia não é tão boa assim, que vai dormir ao invés de pegar uma porra de um lápis e escrever o que eu estou ditando. Isso me cansa, Lucas”.

Ela dizia tudo isso sem alterar a voz. Exatamente do jeito que gosto, sendo levemente sutil e ao mesmo tempo extremamente rancorosa, usando todas as qualidades que lhe atribuí contra mim. Uma grandessíssima filha da puta, senhoras e senhores.

“E quando eu estou disposto a escrever qualquer coisa que você queira me dar”, eu disse, “você simplesmente some sem deixar nenhum vestígio ou telefone para contato. Convenhamos: você é tão filha da puta quanto eu”.

“Ninguém é perfeito. A diferença é que eu me esforço para ter ideias. Você simplesmente as usa.”

“E você adora quando alguém fala bem das suas ideias, sua narcisista”.

“Essa não sou eu, é você”.

“Você vai ou não vai me ajudar dessa vez? Estou realmente com vontade de escrever”.

Ela se levantou, passando as mãos pelos cabelos lisos e castanhos, me olhando com certa dúvida, como se ainda não estivesse cem por cento convencida de que eu estava falando a verdade. Foi até minhas costas, passando as mãos pelos meus ombros e desarrumando meus cabelos. Sussurrou no meu ouvido languidamente, como se estivesse à beira de um orgasmo.

“Não dessa vez. Eu gosto quando você está em agonia”.

“Não se esqueça de que você me pertence, não o contrário”, eu respondi no mesmo tom de voz baixo.

“Você precisa de mim, Lucas, não tente negar. Suas melhores histórias só existem por minha causa”.

“Você se supervaloriza demais, Musa. Pena que não é verdade”.

“Você me supervaloriza, não o contrário”.

“Estou começando a ficar extremamente irritado com você”.

“Ah, é? E o que você vai fazer a respeito?”

“Te mandar embora seria uma boa ideia”, eu disse, fechando o caderno. “Eu posso sobreviver sem você, Musa. Mas você não é ninguém sem mim”.

“Isso não é verdade, você sabe disso. Quando eu for embora, você se consumirá numa agonia tão completa e total que escrever será a única saída. E você não vai conseguir escrever, porque eu não estarei aqui para ajudar”.

“Acho que não preciso mais da sua ajuda”.

“Aí é que você se engana. Você não é nada sem mim, por mais metafísica que eu seja”.

“Eu vou tentar a sorte”.

“Você vai se arrepender disso tudo”.

Ela se assustou ao perceber que eu falava sério. Sumia pouco a pouco, os olhos em desespero.

“Eu já estou arrependido”, eu disse, vendo-a dissolver-se no ar até se tornar um leve sopro de névoa fina.

Voltei ao silêncio, olhando para o caderno fechado a minha frente, completamente seco de ideias. Tinha certeza de que não conseguiria escrever.

Coloquei água para ferver, liguei a televisão e comecei a ver um filme pela metade, como se aquilo fosse me dar algum conforto.

A inspiração havia ido embora para sempre e eu, como Bartleby, simplesmente havia desistido de qualquer coisa.

Mas então pensei, num sopro de inspiração – como se ela sussurrasse aos meus ouvidos: por que não escrever sobre a morte da minha musa?

Foi a primeira história que escrevi sem a ajuda dela, mas ainda a ouço dizer: “Se não fosse por mim, você nunca teria escrito essa história”.

Puta.

Ela tem razão. Eu preciso dela.

“A vantagem de ser metafísica”, ela me disse, puxando uma cadeira e sentando-se novamente, “é que eu não posso morrer”.

Ela sorri para mim no momento em que acrescento este último parágrafo, satisfeita por ter seu valor reconhecido. Sentada ao meu lado, saia levantada e pernas à mostra, ela olha para as palavras, reclamando do tamanho exagerado do texto. “Se eu estivesse aqui, resolveríamos tudo em menos de dois mil caracteres. Mas isso você aprende com o tempo. E com a minha ajuda, é claro.”

domingo, 28 de março de 2010

Lançamento: Aura de Asíris - A Batalha de Kayabashi

Ainda não li esse novo lançamento da literatura fantástica brasileira, mas já já entrará na minha lista de espera. Assim que estiver lido, deixo aqui o meu parecer sobre a obra. Enquanto isso, segue o release do livro "Aura de Asíris - A Batalha de Kayabashi", do escritor - e amigo virtual - Rafael Lima. Espero que gostem!


Disponível! - Aura de Asíris - A Batalha de Kayabashi

O livro Aura de Asíris - A Batalha Kayabashi, um épico tecnofantasy escrito pelo publicitário carioca Rafael Lima e com referências como Star Wars, Final Fantasy e Dragon Ball Z, já está disponível nas melhores lojas físicas e virtuais do país.

Confira a sinopse:

Duas raças. Um só mundo e destino. A aventura começa.

Há séculos, banshees e furous guerreiam ao norte de Asíris, mundo governado por uma avançada tecnologia e permeado por uma energia chamada Aura. Apesar dos banshees terem vencido a maior parte das batalhas, algo está para mudar.

Uma antiga lenda, que prevê o nivelamento de forças entre as duas raças e, consequentemente, o fim desta que é conhecida como a Grande Guerra, aparenta ser verdadeira quando os furous inexplicavelmente se tornam mais poderosos e capazes de derrotar seus inimigos pela primeira vez na história.

A partir daí, uma batalha sem precedentes eclode em uma região conhecida como Deserto de Kayabashi. Neste cenário de tensão e expectativa surge Yin Ashvick, um menino de doze anos que pode ser a única esperança de todos. Ele terá que enfrentar uma longa e perigosa jornada, a qual colocará a prova sua coragem, altruísmo e determinação.

Para isso, terá a ajuda de seu mestre, Hanai Ashvick, o general do exército banshee, Irwind Heatbolth e outros personagens bastante carismáticos. Cada um terá que encarar seus piores temores para descobrir a verdade por trás da onda de terror que assola sua terra e pôr fim na grande ameaça que se aproxima.

Para comprar Aura de Asíris - A Batalha de Kayabashi acesse:
http://www.auradeasiris.com/comprar.html

Todas as informações sobre a obra também no site.

terça-feira, 23 de março de 2010

"Annabel & Sarah", Jim Anotsu


Quando ouvi o nome de Jim Anotsu pela primeira vez, logo pensei: ‘ora, então a editora Draco, dando os primeiros passos no mercado editorial brasileiro, já resolveu apostar em traduções de autores internacionais?’ Feita uma rápida pesquisa, logo descobri que Jim Anotsu, apesar de viver sob as pontes de Londres (correção: pontes de Seattle, como o Jim disse no comentário. Confundi criador e criaturas :P) e cuidar de seu cachorro Humbug, é o pseudônimo de um autor nacional.

Logo fiquei com os dois pés atrás, me perguntando qual era a finalidade de um pseudônimo como aquele: confundir os leitores, fazendo-os pensar que o livro é uma tradução e, com isso, tentar uma jogada de marketing para vender mais exemplares? Ter medo de mostrar o próprio nome, preferindo, ao invés disso, usar um pseudônimo que soasse melhor do que um sobrenome brasileiro comum? Talvez isso, a princípio, tenha me deixado um pouco receoso quanto ao livro em si.

Puro preconceito.

Após o lançamento oficial do livro, descobri que ele estava sendo muito bem recebido pelos leitores, com ótimas resenhas e críticas. Estava pronto para adquirir um exemplar, mas, para a minha surpresa e satisfação – e antes que eu enfiasse as mãos nos meus bolsos furados – fui premiado com um exemplar no sorteio da comunidade do Orkut “Escritores de Fantasia & FC”. Via de regra, devo fazer uma resenha para compensar o ganho do exemplar.

Tudo bem, eu a faria de qualquer forma mesmo.

O livro “Annabel & Sarah” (Editora Draco, 156 páginas) narra a história de duas irmãs gêmeas, mas muito diferentes. Annabel é uma rock’n’roll girl, com cabelos tingidos de preto, All Star sujo e uma personalidade extremamente sarcástica e irônica; Sarah é a menina que todo o pai pediu a Deus: calma, cálida, bela, extremamente educada e correta. Filhas de pais separados – Sarah morando com a mãe e Annabel com o pai – as duas são surpreendidas quando Sarah é seqüestrada por uma televisão e vai parar em um universo paralelo onde todos devem ser sempre felizes. Agora Annabel precisa unir forças a um lobo detetive e partir em busca da flor Amor-Perfeito, única coisa capaz de salvar Sarah.

A sinopse é, por si só, eletrizante. E o livro faz jus à sinopse: carregado de cenas de ação, ele te leva para os mais absurdos – e criativos – lugares. Sarah, em um mundo onde todos devem ser felizes (o que me lembra, a propósito, um episódio excelente do desenho “Os Padrinhos Mágicos”), comendo tortas de morango que aumentam o ânimo e tendo que lidar com fiscais que denunciam qualquer um que ouse derramar uma lágrima ou apresentar qualquer sinal de tristeza; Annabel, em contrapartida, para em um universo beat e noir, onde animais falam e humanos são mero rebanho para a alimentação. Lá, ela se une ao lobo Op Spade, detetive arisco e mal-encarado que aceita ajudar Annabel por intermédio de uma raposa chamada Dean Chinaski.

Não poderia deixar de comentar sobre as referências do livro: Chinaski, rua Kerouac, Spade, rua Bukowski, nomes de capítulos como “Corra, Sarah! Corra!”, citações a bandas, filmes e séries de TV... tudo casa extremamente bem com a atmosfera do livro. Em momento nenhum as referências parecem forçadas; muito ao contrário! Conseguimos, a partir dessas referências – que devemos pescar ao longo do livro, uma vez que nenhuma delas é completamente explícita – descobrir alguns dos gostos do autor (se do Jim ou do autor por trás do Jim nunca saberei dizer) e suas influências, que não são poucas.

Mas como nem tudo são amores-perfeitos e não se pode ser eternamente feliz, consegui captar algumas falhas ao longo de “Annabel & Sarah”: a principal talvez seja a pouca profundidade das personagens, de um modo geral. Mesmo que os artifícios do interlúdio tenham sido extremamente inteligentes para mostrar um pouco do relacionamento das duas irmãs, senti que outros personagens com histórias muito boas – como Op Spade, Ava Hepburn e Estrela-da-Manhã – poderiam ter as suas histórias um pouco mais aprofundadas. Op Spade me pareceu tão-somente um lobo rabugento e Estrela-da-Manhã uma menina birrenta.

Senti também que rolou um pequeno anticlímax na hora fatídica em que Sarah é sugada pela TV: tudo acontece muito rápida e repentinamente. Se o texto fosse em primeira pessoa, acharia esse artifício interessante, mas, por ser em terceira, acho que o narrador poderia se demorar um pouco mais antes que ela fosse tragada para o mundo de Allegria.

Outra pequena falha se deve à revisão: apesar de poucos, alguns erros – principalmente os de concordância – se tornam chatos com o passar das páginas. Mas não sou o melhor do mundo com gramática, portanto não posso reclamar muito quanto a isso.

No fim, temos a sensação de termos mergulhado em dois mundos completamente diferentes e divertidos, apesar de seus perigos. “Annabel & Sarah” é um romance delicioso, uma completa surpresa por se tratar de um autor nacional e tão jovem com tamanho tato para a fantasia e originalidade para a história.

No mais, coloque o CD “Favourite Worst Nighmare” do Arctic Monkeys para tocar e delicie-se com esse livro belíssimo e sensacional (eu não sei o motivo, mas sempre que vejo essa capa, a música “Teddy Picker” começa a tocar na minha mente. Acho que tenho que me tratar).

sábado, 20 de março de 2010

Perdão


Os sinos deixaram no ar uma música que fazia até mesmo os anjos se arrepiarem. Sobre o átrio da igreja, uma senhora de setenta anos varria as folhas outonais, numa solidão silenciosa embalada apenas pela sequência metálica e angélica que reverberava por toda a cidade. Não se ouvia nada além daquele som: até mesmo os pássaros suspendiam seu canto; o vento freava momentamente o som que fazia ao balançar as folhas secas, retirando-as do conforto de seus caules; as crianças paravam a gritaria do futebol e as senhoras fofoqueiras suspiravam, cedendo um segundo precioso de silêncio aos seus discursos pérfidos.

Às sextas-feiras a missa começa apenas as oito, e contavam ainda duas da tarde. O sol se estampava em um céu sem nuvens; o calor intenso imprimia um ambiente instável de chove-sol-chove que ninguém conseguia entender, por mais que os ambientalistas tentassem explicar. Sob sua batina negra de quem nega os prazeres da carne e esconde as suas – como uma penitência pelos pecados que ainda virá a cometer –, o padre suava. Os poros gritavam por um pouco de ventilação, as gotas convertendo-se em minúsculas cascatas que deslizavam por sobre a testa saliente, dissolvendo-se na roupa pesada.

O padre contava ainda vinte e oito anos, sendo um dos mais novos que já havia passado por aquela igreja. Tinha olheiras profundas que só um viciado em cafeína poderia nutrir e reconhecer, olhos leitosos de quem passa muito tempo analisando palavras miúdas e se nega a usar um par de óculos ou lentes de contato, mãos calosas de quem, ao contrário do que possa parecer, não gasta horas na academia, mas sim na construção de casas para necessitados durante as semanas onde as obrigações com a igreja não são tão urgentes. Um ser incorruptível, dono de um sorriso manchado que gerava risinhos das mais novas e maus olhares das mais velhas – “ora, ele deve andar por aí a se esfregar com menininhas iludidas que o tomam por uma diversão”, ou “ele é um menino bom demais para não ter nenhum defeito, deve andar por aí alisando os coroinhas sem fazer cerimônias, tudo às escuras, como o demônio gosta de fazer as coisas”, os comentários indo e vindo silenciosamente, mas os sorrisos bobos e falsos de admiração, as mãos beijadas numa humildade beata e os conselhos encorajando-o a manter-se sempre íntegro e bom como sempre foi e sempre deveria ser só aumentavam. E o padre, realmente inocente de todos os pecados que lhe imputavam, acreditava piamente que tudo aquilo era sinceridade santa, que Deus havia posto aquelas mulheres e homens naquele lugar para dar-lhe conselhos tão bons porque era misericordioso e sabia reconhecer todos os seus méritos como discípulo de Pedro.

Estava sentado sobre um dos bancos da igreja, aproveitando aquele raro momento de paz em que o sino badalava para conversar com Deus. Tinha o hábito de sentar-se pelo menos duas vezes por semana naqueles bancos envernizados cheios de chicletes nas partes de baixo, quando a paróquia estava fechada, longe das loucuras dos domingos ou da legião de senhoras que vinha sempre rezar seus terços e cantar seus cânticos aos santos devotos e à virgem Maria. Ele fechava todas as janelas e a porta, ficando só, encarando a face ensanguentada do Cristo, que pendia na parede atrás do altar, olhando-o com uma expressão de tristeza misturada à piedade. O calor era insuportável, mas o padre dizia a si mesmo que o inferno não teria tanta complacência quanto às paredes daquela igreja, portanto a temperatura era suportável.

Tinha os olhos fechados, na metade de um salve rainha, quando a porta da igreja vibrou estrondosamente. Alguém batia do outro lado. Batia freneticamente, sequenciadamente, pronto para derrubá-la se assim fosse necessário. Alguém gritou, um grito cortante que se sobrepôs à última badalada do sino, tirando os pássaros de seu silêncio e o vento de sua letargia, fazendo o padre abrir os olhos em um sincero questionamento que ora tendia ao aborrecimento ora à preocupação. Respirou fundo, coçou a cabeça, secou a fronte e foi ver o que diabos estava acontecendo. Ninguém tinha o hábito de bater na porta do padre com tamanho desespero e urgência. Alguma coisa poderia não estar certa.

Tirou as chaves dos bolsos e abriu o cadeado que ficava entre as argolas de aço da pesada corrente. Desenrolou-a da porta da igreja – se perguntando por que ainda não haviam colocado um ferrolho ou uma chave tradicional naquela porta – e jogou-a para o lado, abrindo as portas duplas com violência. A luz do sol penetrou sem cerimônias, cegando o padre que até então se mantinha na penumbra dos vitrais translúcidos, e tudo o que ele pode ver foi um vulto alto caindo ao seu peito, pedindo ajuda e chorando como apenas os bebês esfomeados ou os recentemente enlutados choram. Tinha as mãos viscosas de quem derramou lágrimas demais, mas bastava um olhar mais atento para perceber que aquilo não eram lágrimas. Eram mãos rubras, manchadas de sangue.

O homem tinha uma faca nas mãos. E tinha as mãos manchadas de sangue.

- Padre, me perdoe, pois eu pequei.

Ajoelhou-se e chorou desesperadamente, atingido por uma dor desconhecida que o corroia por dentro e o insuflava a chorar cada vez mais. Caiu, deitado em posição fetal no meio do corredor, os olhos voltados para o altar. Jesus crucificado o encarava.

As pessoas não tardaram a aparecer pela porta. Primeiro, curiosos por conta do barulho das batidas na porta; depois, curiosos com os gritos lacrimosos do homem, como o presságio funesto de algum acontecimento importante. Logo, a porta da igreja estava repleta de olhos desocupados, pescoços espichados e expressões que transitavam entre a estupefação completa e a desaprovação. O padre fechou as portas sem pedir licença, deixando um sabor de curiosidade insaciada nas gargantas da pequena cidade.

- Padre! – gritou alguém do outro lado. – Ele está armado!

- Eu já vi! – o padre gritou em resposta. – Vão embora daqui, ele veio se confessar!

Mas ninguém iria embora dali até que todas as respostas estivessem saciadas, e o padre sabia muito bem disso. Suspirou, passando as mãos pelo rosto para tentar recompor-se do susto antes de voltar-se novamente para o homem.

O homem das mãos ensanguentadas agora já estava mais calmo. Havia se arrastado até um dos bancos, absorvido em seus próprios pensamentos atormentados, olhando para um lugar incógnito com olhos vazios daqueles de quem faz uma análise de sua própria alma. Brincava com a faca entre os dedos, mecanicamente.

- Dê aqui essa faca. – pediu o padre ainda de longe, com medo de um acesso nervoso do homem e um ataque eminente.

Sem reclamações – na verdade, sem nem mesmo uma palavra sequer – o homem estendeu a faca e entregou-a de bom grado, tremendo.

- Isso mesmo. Agora me conte, o que aconteceu?

O homem tinha as palavras engasgadas. Tentava falar, mas tudo o que saía de sua garganta eram gemidos ininteligíveis e sofridos, trêmulos como suas próprias mãos. Os anjos das pinturas e dos vitrais, as esculturas aos sopés das janelas, os próprios querubins bordados na toalha de mesa que cobria o altar, tudo parecia silencioso e atento àquelas palavras, prontos para a decisão que o absolveria ou o levaria para o inferno. Eram olhos de Deus transformados em criaturas inanimadas e intimidadoras, gárgulas traçadas nos mais belos desenhos, longe dos moldes góticos e funestos.

- Vamos, homem. – o padre tentava encorajá-lo. Agora, como o homem tivesse apenas as lágrimas que desciam de seus olhos como arma, o padre tinha coragem para se aproximar. Sentou-se ao seu lado, postando uma das mãos em seu ombro esquerdo, apertando-o com força, transmitindo sua coragem. – Vamos, diga-me o que aconteceu. Vejo que está arrependido, só resta que me confesse o seu pecado. Você matou alguém?

Sabia da verdade daquelas palavras no momento em que vira aquela faca. Sim, aquele homem havia enfiado aquela lâmina fria no peito de alguém, quanto a isso não restavam dúvidas. O sangue, a faca e o nervosismo do homem já eram provas suficientes para que nenhum investigador seguisse por outra linha de raciocínio.

O homem, tal como uma criança mal-criada pega em suas travessuras, apenas acenou em concordância com a cabeça, olhos abaixados de quem finalmente teve seu segredo revelado.

- Não se preocupe. Deus é infinitamente bom, homem, ele há de te absolver. Agora me conte o que o levou a fazer isso. Não precisa ter medo, não sou seu juiz, não irei te denunciar ou fazer qualquer coisa para te prejudicar.

O homem soluçava, abalado e ainda nervoso. Nem mesmo o peso da verdade saiu-lhe das costas. Ao contrário, pareceu-lhe um fardo ainda mais pesado. Fez com que ele chorasse ainda mais sonoramente, com mais sofreguidão. Deitou as mãos sobre os olhos, manchando as bochechas de sangue e diluindo-o nas lágrimas constantes.

Com dificuldade, o homem conseguiu articular as palavras que mudaram completamente a expressão do jovem padre.

- Ele... seu irmão... me perdoa, padre, me perdoa... por favor, me p-perdoa.

Chorava como apenas os verdadeiramente arrependidos choram; não por convenções ou teatralidade barata. Chorava com uma dor que o corroia, que o levava à loucura, ao caso de pensar em se matar para tentar amenizar um pouco a dor que pouco a pouco acabava por matá-lo. Jogou-se no chão, ajoelhado e humilhado, jurando por todo o amor de Deus que o que acabara de fazer – o sangue ainda estava fresco em suas mãos – fora extremamente amargo, com um gosto eterno de fel que ainda estava em sua garganta.

- Do que está falando, homem? – o padre tentava não ligar os pontos, numa burrice consciente. Ouvira perfeitamente as palavras daquele homem, sabia com toda a certeza que aquele sangue que o manchava era um pouco de seu próprio, mas, ainda assim, numa sucessão de atos irracionais, tentava convencer a si mesmo de que ouvira errado, que alguma coisa pudera milagrosamente ter entrado na boca do homem e atrapalhara-lhe a dicção. Ah, como ele queria que aquilo não fosse verdade!

- Seu irmão, padre... eu, e-eu o matei. Por favor, rogo seu perdão!

Abraçou os tornozelos do padre, beijando-lhe as botinas recém-escovadas e molhando-as com suas lágrimas salgadas. O homem fora claro e direto. O peito do padre comprimiu-se, num misto de vazio e incredulidade; seus olhos buscaram em vão algum conforto, uma imagem que pudesse dar um pingo de coerência àquela cena que se desenrolava a sua frente. Mas tudo o que recebeu em troca foram aqueles olhos gélidos de Jesus e de seus anjos, que o afogavam e comprimiam, esperando uma resposta aos atos hediondos daquela criatura miseravelmente posta aos seus pés.

O que fazer, no fim das contas? Agir como um ser irracional, deixar-se levar pela passionalidade e enxotá-lo igreja afora, onde uma horda de curiosos esperava impacientemente por respostas? Pô-lo sobre o genuflexório e mandar que rezasse para que redimisse seus pecados? Ou, por fim, agir como se não fosse o seu irmão, carne de sua carne e sangue de seu sangue, que havia acabado de morrer nas mãos daquele assassino, e perguntá-lo friamente os comos e porquês, como um bom psicólogo faria?

As opções vieram em um milésimo de segundo onde o ar foi suspenso e até mesmo os curiosos pararam com seus murmúrios – ou assim pareceu. O que fazer, Deus, me ajude! O que devo dizer, o que devo fazer, oh, por Deus, o que devo fazer?

Nunca havia sido muito próximo de seu irmão. Lembrava-se com amargura de, quando pequeno, sempre sair chorando das brincadeiras com os meninos mais velhos da rua, que o puxavam pelas cuecas e o chutavam até que pusesse sangue pela boca. E o irmão ficava por lá, impassível, rindo da brincadeira como os outros. Não ousava encostar-lhe um dedo, mas também nunca havia sido suficientemente corajoso para dar um basta àquelas brincadeiras idiotas. Era como se o que acontecesse não acontecesse com seu irmão, mas a um estranho digno de todas as perturbações a que era submetido.

O tempo passava, eles cresciam e o irmão mais velho era sempre aquele que tinha as mulheres e os amigos; o que se divertia e bebia, enquanto o mais novo ficava à particularidade de seu quarto empoeirado, com livros velhos e mal-traduzidos, olhando pela janela à procura de alguma alma que pudesse tirá-lo daquele lugar e mandá-lo para outro, onde as coisas eram permitidas, onde Deus não estaria vendo e onde ninguém o machucaria. Se divertiria como apenas os lascivos se divertem, sem peso na consciência, sem nenhum temor pelo castigo – seja do pai da terra ou do Pai do céu – e seria a mais feliz das criaturas.

Mas isso não aconteceu – ora, e quando acontece? Ao invés disso, a solidão só aumentou. Procurou refúgio na incompreensão da religiosidade e, com isso, tornava-se cada vez mais assíduo das missas e festas da igreja. Ouvia o padre com certo fascínio, mesmo relutante, de quem não acredita realmente no que ouve, mas finge acreditar para ao menos se sentir confortado, como se mentir para Deus fosse um ato perdoável. Balançava a cabeça em acordo com as palavras do padre, sublinhava a bíblia cegamente em busca de um parágrafo belo aos ouvidos ou uma citação que merecesse ser usada como uma frase de efeito.

Fez amigos na igreja, mas não acreditava na amizade de nenhum deles, não realmente – e quanto a isso não fazia questão de tentar mentir para si mesmo, já que nunca havia sido muito adepto a amigos, de qualquer forma. Via-os vez por outra, trocava palavras e conselhos da boca para fora, era ombro amigo de quem queria chorar e tecia comentários maldosos sobre o mundo e sua imundície, e de seu trabalho para salvar todas aquelas almas pecadoras que habitavam essa imensidão. Não era raro ver um ou outro amigo em uma falsidade descarada e inerente a qualquer relacionamento. E ele tentava encarar com naturalidade quando alguém vinha lhe dizer que a Maria já havia transado com o João e entrado na fila da comunhão no mesmo dia; que Alessandra se masturbava na sacristia da igreja e que até mesmo o padre José já havia transado em frente ao Santíssimo. Ele acrescentava um comentário aqui e ali, rindo da humanidade e de seus defeitos incorrigíveis.

Seu irmão nunca havia ido para a igreja, não desde que atingira idade suficiente para responder por seus próprios atos e tomar suas próprias decisões. A mãe ainda acreditava que o filho era católico e que rezava ao seu modo, quando na verdade ele era apenas mais um dos tantos católicos funcionais, que rezam o pai-nosso em voz alta antes de devorar a ceia de natal e pede o socorro de Deus nas horas de desespero em que ninguém mais pode ajudar.

Passaram a morar na mesma cidade, assim que o padre havia sido remanejado para a igreja de sua cidade natal. A igreja ficava a três ruas da casa do irmão, mas ainda assim fazia ao menos dez anos que o padre não o via. Não havia se dignado a visitá-lo nem mesmo uma vez, preferindo, ao invés disso, esperar pelo irmão, aguardar pelo fatídico momento em que ele entraria por aquela porta e se redimiria de seus pecados, pedindo perdão de joelhos, olhos cheios de lágrimas, numa humildade que apenas Deus poderia lhe dar.

É claro que isso não aconteceria, ele sabia disso. Sabia que o máximo que poderia acontecer era vê-lo passando pela rua, distraído como sempre, chutando pedras e assoviando a caminho da padaria ou do mercado. Trocariam no máximo um abraço e teriam um diálogo de elevador, falando sobre o tempo e perguntando o que aconteceu de bom durante todo o tempo em que não se viram. E naquela conversa eles se descobririam estranhos, dois homens que não passam de colegas, vizinhos que não se falam.

Por que, então, se importar tanto com a morte dele? Por que chorar pela morte de um estranho, pelo assassinato de um homem que há muito deixou de ser alguém importante na vida dele? A morte de um colega sempre chega com certo choque, mas não chega a ser triste. É apenas um ‘oh, ele morreu...’ e uns minutos de silêncio, acompanhados de um dar de ombros em que a vida segue adiante. É apenas o fim de mais uma presença, o desaparecimento de um rosto não tão familiar ou conhecido. Mas o que fazer quando esse rosto é sangue do seu sangue, um irmão, que, no fim das contas, nunca cometera nenhum ato vil o suficiente para ser laureado com uma faca em seu peito?

- Por quê?

Foram as únicas palavras que conseguiram sair da boca do padre, como um mero sussurro que reverberou como um grito por toda aquela igreja. Ele não queria motivos, não realmente. Não queria saber o que havia acontecido, queria se manter na escuridão da caverna de Platão, ver apenas sombras e ser feliz com suas amarras. Então por que a pergunta? Por que se envolver mais profundamente com a morte de um homem que não mais conhecia?

- Oh, rogo a Deus, não me pergunte nada! – o homem respondeu, sussurrando tão baixo quanto o padre. – Só peço que me perdoe, padre, pois não me orgulho do que fiz.

O que fazer, agora que aquele homem lhe pedia o perdão? De fato perdoar-lhe, como um bom padre cristão, ou denunciá-lo às autoridades? Ora, era um irmão, era um amigo, acima de tudo, que havia morrido pelas mãos daquele homem, posto sua impessoalidade ou qualquer sorte de pensamento negativo. O que fazer, Deus do céu, ajude-me!

Viveu um momento onírico: era como se as paredes parecessem menores, como se os vitrais o oprimissem, exigindo uma resolução imediata ao problema, exigindo um veredicto absoluto sobre a vida daquele homem que tão humildemente se ajoelhava aos seus pés, beijando suas botinas e chorando sobre o chão sagrado da sacristia. Era como se o padre houvesse bebido uma quantidade considerável de vinho; tudo rodava ao seu redor, pedindo uma explicação racional e uma resposta sincera. Precisava de um argumento convincente, seja para incriminá-lo ou para absolvê-lo.

- Vá em paz, meu filho. – disse, um nó formando-se em sua garganta, segurando as lágrimas que queriam cair. – Teu pecado foi grave, mas teu arrependimento é absoluto, posso ver em tuas palavras que discorre acerca da verdade. Vá em paz.

- E qual a minha penitência, padre?

- Tua consciência o dirá, meu bom homem. Não sou ninguém para puni-lo ou culpá-lo por tais atos. Teus motivos, sejam eles banais ou não, não são de todo irracionais. Não sei de teus propósitos, e nem intenciono sabê-lo; já me basta o teu arrependimento, é o bastante para tua absolvição. O mundo já será cruel o bastante contigo; Deus será misericordioso, como sempre o foi, e poderá entender todos os teus motivos. Não sou Deus para julgar-te; sou padre para absolver-te, e essa é minha função.

- Oh, padre, obrigado, obrigado! – ele respondeu, lágrimas escorrendo de seus olhos avermelhados, joelhos postos no chão, cabeça baixa e mãos postas a frente do peito. – Meu pecado foi horrível demais, não poderia imaginar que tu irias me absolver. Obrigado, oh, obrigado, por todos os santos!

- Saia pelos fundos da sacristia, bom homem. – o padre ainda teve a consideração de dizer – Evite os curiosos que amontoam a entrada da igreja em busca de respostas.

O homem saiu, desfazendo-se em agradecimentos, fielmente convencido de que o padre o havia perdoado.

Mas não, ele não o havia perdoado, não por completo. A dor de perder o irmão, assim que aquele homem lhe foi embora pelos fundos, finalmente fez-se perceber: ele lembrou-se de todos os dias no parquinho, escavando a areia com as pás de plástico, jogando terra nos olhos de seu irmão, rindo e colhendo amoras com a ajuda da mãe, que o segurava no colo e o elevava às alturas em busca dos frutos mais maduros e deliciosos. Ele sentou-se sobre um dos bancos, chorando como nunca havia chorado antes, lembrando das risadas e dos dias em que o irmão fazia piadas; da juventude, oh, a juventude, os quinze anos de idade onde eles roubavam os cigarros do tio e fumavam escondidos; onde pediam bebidas aos donos do bar que, de bom grado, lhes davam garrafas e mais garrafas com as quais os dois se embebedavam. Ao chegar em casa, diziam que estavam jogando bola no campinho e estavam profundamente cansados de toda a correria.

Lembrou-se de todos os dias em que choraram: por conta de alguma frustração besta que nem mais lembravam uma semana depois, por namoradas esquecidas, por matérias perdidas na escola, por bebedeiras que deixaram de participar, por transas que não completaram seja por nervosismo ou simples desconforto.

E também se lembrou de todos os dias que riram: por todas as mulheres que conquistaram – o irmão em um número extremamente maior –, por todos os sonhos que conquistaram – que iam desde ler um livro de mil e quinhentas páginas até ir para o seminário – e por todos os desejos que conseguiram realizar.

Sentado sozinho, ele chorou. Não por perdoar o homem que manchara as mãos de sangue ao matar seu irmão, mas por não se perdoar ao perdoá-lo.

Chorou por todos os dias em que poderia ter falado com o irmão e não falou. Chorou pelos momentos em que poderia ter-lhe dito: ‘eu te amo’ de um modo fraternal e não o disse. Por todas as brigas e por toda a inveja, por todas as coisas ruins que cegaram seus olhos às coisas boas que ambos compartilhavam.

Chorou por ter de esperar a morte do irmão para perceber o quanto ele era importante em sua vida.