sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

"O Nome da Rosa", Umberto Eco

Faz tempo que não publico uma resenha no blog. Então, para começar o ano com o pé direito – quantas pessoas já falaram isso por aí? :P – vou falar sobre a minha segunda leitura do ano, que começou no meio do mês de dezembro e se arrastou até agora. Trata-se do já clássico “O Nome da Rosa”, do escritor italiano Umberto Eco.

Já no prefácio do livro (21ª edição da Nova Fronteira) damos de cara com a história de como o livro foi concebido, através de um manuscrito encontrado por Eco em uma de suas muitas viagens pelo mundo. E já dali conseguimos perceber como Umberto Eco escreve: de forma um tanto arrastada e erudita. Talvez espante os leitores mais casuais logo ali – me espantou da primeira vez que tentei ler o livro, há uns anos atrás – mas, ultrapassando-o, finalmente chegamos à história em si.

O livro conta a história de Adso de Melk, um abade que, já na sua velhice, escreve sobre os sete dias em que viveu trancado em um mosteiro, na Itália do século XIV. Durante esses dias, uma série de assassinatos leva Adso e seu mentor, Guilherme, a investigarem os acontecimentos, entre corredores escuros e a majestosa biblioteca, cheia de livros indecifráveis e grandiosos.

O enredo policial é extremamente bem feito e amarrado: a história é dividido em sete dias, e estes dias divididos entre os diferentes horários estabelecidos por nomes próprios (matinas, laudes, primeira, terceira, sexta, nona, véspera e completa). A história é instigante, mesclando romance policial moderno com um texto erudito.

E o texto é o ponto forte do livro: é escrito de forma a parecer com um escrito do século XIV, e consegue exercer a sua função. Viajamos entre imagens barrocas de demônios, deuses, seres fantásticos, imagens perturbadoras e sonhos intrigantes, ao mesmo tempo em que conseguimos nos ambientar nos momentos em que o protagonista descreve minuciosamente um cenário ou situação macabra. Mas, ao contrário do que se pode pensar, não é algo fácil de ler: durante muitos momentos, tive vontade de fechar o livro e rearranjar os pensamentos. É preciso tomar cuidado extremo para não acabar lendo o livro sem prestar atenção nas palavras, lendo no piloto automático.

Se pudesse destacar um ponto negativo (ao menos na minha edição) destacaria as dezenas de citações em latim, francês, espanhol, castelhano e tantas outras línguas que recheiam o livro e não são traduzidas, sequer nas notas de rodapé. Dá uma raiva imensa ter que pular partes tão grandes, músicas e poemas, mesmo que estes não façam muita diferença no produto final da leitura ou não tenham que ser traduzidas para manter um ar de mistério. Acredito que, se os trechos estão ali, é porque, de uma forma ou de outra, fazem parte da história. Não sei se todas as edições do livro são assim – acredito que não – mas acho um grande desrespeito o de não traduzir. Afinal, ninguém é obrigado a ser fluente em latim.

O livro, quando não aborda a sua trama em si, divaga sobre diferentes aspectos do papel da Igreja durante o século XIV, tudo sobre o ponto de vista dos monges. É incrível e espantoso ver o entendimento que Umberto Eco tem sobre todos esses assuntos: é nítida a imensa pesquisa que foi necessária, talvez de anos, para que cada um daqueles monólogos fosse feito. Alguns pecam pela prolixidade, outros acertam pela singularidade. Eu me perguntava, certas vezes, se Eco não teria vivido naquela época, visto todas aquelas coisas e escrito para nós, tamanhos são os detalhes incrustados no texto.

“Somente o bibliotecário, além de saber, tem o direito de mover-se no labirinto dos livros, somente ele sabe onde encontrá-los e onde guardá-los, somente ele é responsável pela sua conservação (...) somente o bibliotecário sabe da colocação do volume, do grau de sua inacessibilidade, que tipo de segredos, de verdades ou de mentiras o volume encerra. Somente ele decide como, e se deve fornecê-los ao monge que o está requerendo (...). Porque nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por uma alma piedosa, e os monges, por fim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler alguns e não outros volumes, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que porventura os colha, quer por fraqueza da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica.”

– “O Nome da Rosa”, Umberto Eco (fragmento)

O livro é erudito, misterioso, instigante, certas vezes cansativo, na maioria simplesmente fantástico. Uma leitura difícil – ainda mais durante as madrugadas, quando a atenção não está lá 100% – mas gratificante. Tenho certeza de que, mesmo que o livro cause algum sofrimento à mente em algumas partes mais entediantes, será simplesmente inesquecível em outras (os sonhos de Adso, os assassinatos macabros, os discursos inflamados e o final vívido e interessantíssimo). Enfim, altamente recomendado para todos aqueles insistentes!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Yeah, mais BBB!


Como já é de praxe na programação da Rede Globo de televisão - e o que não é de praxe lá? - teremos mais um verão regado a BBB. O décimo, a despeito de todas as críticas, acusações (e comprovações) de fraudes e arapucas. E sim, eu verei o BBB 10, por que não?

Cultura de massa, alienação social, programa xulo, barato, pessoas desconhecidas, fama efêmera, capas de Playboy, brigas, discussões, armações, manipulações, vozes do além mandando nos participantes, etc etc etc... a lista de adjetivações, sejam negativas e positivas, é imensa.

Tentei, por muito tempo, me convencer de que era superior à massa desintelecutalizada desse nosso país. BBB, pra quê? Coisa de gente sem cérebro, sem cultura, sem opinião formada, eu me dizia, naquele momento em que tentava afirmar a mim mesmo e ao mundo que não existia ninguém melhor e mais inteligente que eu. Naquela pose blasé cara de cu superior e soberbo.

O tempo passou e o tal vírus do BBB não me largou. Lutando contra mim mesmo, fuçava a internet atrás de notícias, prestava atenção quando o número de "PI's" ficava ecoando pelo televisor da sala e prestava atenção às notícias dos programas da tarde, que tem como único propósito ganhar audiência em cima dos programas alheios (alô, Sônio Abrão!).

Sim, eu me submeti.

Não sou hipócrita, também. Não fico tentando achar justificativas culturais para assistir BBB... toda essa baboseira de análise psicológica-freudiana de desconhecidos e suas relações dentro de um recinto sem comunicação externa simplesmente não me convence (desculpe, Bial).

Vejo BBB porque é divertido ver as edições manipuladas, ver as brigas exageradas, ver as bundas ao sol (a melhor parte, sem dúvidas e sombras) e toda aquela baboseira de intrigas e panelas e suspense de confessionário. Ah, vai, é divertido!

Me desculpem as vaquinhas, cavalos, bois e Britto Júnior, mas o BBB é bem mais legal :)

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Balanço de 2009

Sempre que o ano vai chegando ao fim, vem aquelas listas intermináveis de livros lidos, filmes vistos, games jogados, pessoas conhecidas, palavras faladas, etc e tal. Não fiz nenhuma lista esse ano - apesar de adorá-las, não tive paciência depois de junho -, mas cá estou para tentar fazer um balanço desse ano que passou. Um pouco estilo retrospectiva 2009...

Esse ano foi excepcionalmente bom. Não por ser o do meu último ano de escola - terminar o terceiro ano é um alívio, mas tem um sabor agridoce com o fim de amizades e encontros diários com outros alunos e professores - e o ano em que enfim prestei vestibular - ainda estou em estado de agonia interna esperando os resultados dos aprovados -, mas sim por ter sido um ano de muita aprendizagem. Me cansei extremamente, das pessoas e de tudo o mais, depois desenjoei, aprendi a gostar e desgostar, a falar mal nas horas menos apropriadas e falar bem só quando deveria. Descobri livros que nunca descobriria por conta própria, conversei com pessoas que imaginei que nunca conversaria na minha vida e solidifiquei amizades que serão difíceis de ser desfeitas.

Enfim, só queria escrever esse breve relato pra isso mesmo: compartilhar as belezas e feiúras desse ano que passou, com todos aqueles que são especiais, mesmo que sequer desconfiem disso.

Então é isso, até o ano que vem :)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Alguém ainda duvida do poder do Toddynho?

Essa é pra abrir a seção 'inutilidades' do blog :) Roubado desse blog aqui

Ano novo, blog novo

Pois é, resolvi dar uma repaginada no layout do blog, pros meus 2,56 leitores sentirem que alguma agitação está acontecendo por aqui :) Espero que gostem

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Eles dizem

Dizem que poesia é momento
Inquietação de uma
alma enlouquecida.

Dizem que poesia é sofrer
Gritar de dor por um
presente ilusório.

Dizem que poesia é amar
Expresso em versos
doces e sinceros.

Dizem que poesia é chorar
Por aqueles que não
podem mais lê-la.

Dizem que poesia é querer
Querer dizer e não
dizer para ninguém.

Dizem que poesia é sorrir
Por uma vida um tanto
quanto miserável.

Dizem que poesia é morrer
de sofrer
de amar
de chorar
de querer
de sorrir.

Dizem que poesia é inútil.

(09/12/09)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O Aniversário das Minhas Cicatrizes

*A imagem do escritor Jorge Luis Borges é meramente ilustrativa


Sinto o cheiro do concreto das escadarias. Não é algo tão agradável quanto os pratos deliciosos de fim de semana de dona Fernanda, mas ainda assim consigo aproveitá-lo. Arrasto meus dedos no muro irregular e áspero, chamam de chapisco, não sei é assim que se fala, acho que é. Sinto o calor dos raios solares preso naquela parede, confortando e aquecendo como uma mãe que tranquiliza o seu filhote nos dias frios de inverno. Impessoal, o muro continua ali, sem falar ou agir, sendo um atuante passivo de todo o calor agradável de seis e meia da manhã.

Desço as escadas silenciosamente, tendo como únicos sons os da minha respiração e o toc toc toc de minha bengala. Os pássaros tímidos cantam a primeira canção do dia quando o vento bate nas copas das árvores mais altas. Cansado, pernas enrijecidas de tanto esforço, brisa no rosto, sento sobre os últimos degraus da escadaria, num esforço homérico para não tombar e cair feito um velho desatento e frágil. Ironia seria chegar aos noventa e seis anos e morrer tropeçando no último degrau das escadas. Não, não ironia. Fatalidade. Dessas que sempre acontecem a velhos desatentos, que gastam tanto da vida e acabam morrendo engasgados com um pedaço de carne maior do que as suas dentaduras aguentam triturar.

Penso na morte todos os dias. De tudo o que me resta, pensar na morte é aquilo que mais me conforta. Essa sensação de saber que o fim chega; de sentir, com toda a certeza, o peso do mundo sobre os ombros. De acordar e esquecer quem é, onde está e o que está fazendo. A morte é minha musa. Em meus sonhos, esqueço-me daquela imagem de ceifador com a qual desde sempre aprendi a relacionar a morte. Não, a minha morte não é uma caveira suja de capuz negro e foice na mão. É, ao invés disso, uma adolescente das mais doces, com olhos amendoados e cabelos bem amarrados em duas tranças dos lados de sua cabeça. Tem um vestido de flanela e carrega consigo uma cesta de frutas, todas polpudas e cheias de vida, assim como ela. Mantém-se jovem usando e abusando de velhos como eu, tomando-lhes o que lhes resta de vitalidade. Tudo para que suas frutas sempre continuem polpudas e que seu sorriso nunca fique amarelado. É como Judy Garland no caminho das pedras amarelas, com Totó ao seu lado, sorrindo e cantando e sempre encontrando um personagem interessante com o qual pode se relacionar.

Encosto o queixo sobre a bengala, cansado. Esfrego os dedos sobre as cicatrizes dos meus pulsos, minhas companheiras inseparáveis há vinte e cinco anos. Hoje é o aniversário delas. Bodas de prata com as minhas companheiras mais fiéis e inseparáveis. Nem mesmo toda a senilidade da idade avançada me fez esquecê-las. Nem poderia. Estão aqui, todos os dias, ao simples toque das pontas de meus dedos, como uma amarga lembrança de minha única tentativa de adiar o encontro com minha Judy Garland particular. Plano frustrante e sem sucesso, que deixou como única recordação uma série de memórias amargas e um par de cortes transversais que, por sorte, nunca pude enxergar. As memórias continuam aqui ainda hoje, mas acho que não vale a pena remoê-las, nem mesmo no dia do aniversário de minhas cicatrizes.

Mas as memórias vêm. Por mais que tente reprimi-las ou pausar a minha linha de pensamento com imagens do Homem de Lata ou do Leão Covarde, elas sempre voltam. Sinto que as lágrimas patéticas e salgadas começam a escorrer pelo meu rosto, e me sinto estúpido por ainda chorar por conta disso. É mais forte do que todas as minhas convenções ou falsas emoções; maior do que as minhas farsas e meus sorrisos de ‘hoje está tudo bem’. É a sinceridade carnal de minhas particularidades. Coisas complicadas demais, das quais nem eu entendo muito bem. Tudo o que sei é que doi. As lembranças da dor doem mais do que a dor propriamente dita: ainda sinto as lâminas enfiando-se por minha pele, estourando vasos e fazendo o sangue jorrar dos pulsos. O barulho ensurdecedor da água do chuveiro e eu, caído no chão frio de qualquer jeito, brigado com Deus e perguntando por que o Soberano não poderia escolher outro para irritar com suas provações divinas. ‘Fraco’, eu ouvia uma voz dentro de mim dizer. Talvez fosse eu mesmo. Talvez fosse apenas Deus, decepcionado com meu ato e raivoso com minha decisão. Ainda hoje não sei dizer. Naquele breve momento, pensei que fosse fácil morrer. Pensei que tudo tinha dado certo, que eu tinha conseguido burlar as provações divinas com minhas próprias mãos e livre arbítrio. Quisera eu.

Acordei dois dias depois, zonzo e acreditando que estava no inferno dos suicidas. Mas estava apenas na cama de um hospital público, fedendo a urina e fezes involuntárias. Vozes nos corredores de lá para cá, pessoas correndo, barulho de sapatos, pessoas gritando, crianças chorando, insatisfeitos reclamando. Senti que alguém pegava em meu braço e o sacolejava.

“O senhor está me ouvindo?”, ouvi a voz dizer.

“Estou”, respondi, a garganta seca.

“Por favor, siga a luz da lanterna com os olhos”, ela disse.

“Não”.

“Por que não?”.

“Sou cego”.

A verdade estampada naquelas palavras doeu ainda mais do que as lâminas em meus pulsos. Era a primeira vez que dizia isso em voz alta. A primeira vez que admitia isso para alguém além de mim mesmo. Antes, tentava enganá-los com óculos de lentes grossas, sendo tomado apenas por mais um velho de vista cansada. Sentia que os dias passavam e o mundo sucumbia às trevas, gradualmente, lentamente, numa agonia constante. Então acordei, mas ainda estava escuro. Esfreguei os olhos e nada mudou. Via luzes cintilantes e multicoloridas, dessas que a gente não presta atenção quando está de olhos fechados. Tentava defini-las, mas tudo o que conseguia era me desesperar mais. Esfreguei os olhos com mais forças, mas tudo o que conseguia era que o desespero tomasse conta de mim.

Fui considerado um perigo para mim mesmo. A primeira providência seria ligar para algum familiar ou parente. ‘Não há nenhum’, eu disse, ‘moro sozinho’. Não daria o telefone de meu filho, sob hipótese alguma. Mesmo que fosse a única pessoa com quem pudesse contar – e era, naquele momento –, ainda assim preferiria a solidão por toda a infinidade. Então só me restava uma opção: uma casa de repouso, onde enfermeiras bem treinadas cuidariam de mim e vigiariam para que eu não cometesse mais nenhum atentado contra minha vida.

Foi quando cheguei aqui, aos setenta e um anos de idade. Com apenas uma mala nas mãos, três camisas e duas calças de brim. Sempre pensei que chegaria à idade avançada rico e famoso, repleto de saúde e belas mulheres. Minhas fantasias adolescentes, quando pensava que o mundo era pequeno demais para minhas ideias. Seria um grande astro, importante, teria meu nome marcado para sempre na história. Hoje não sei se alguém sabe que existo. Sou como um fantasma, e nem mesmo morri. Passo por esses corredores como um mau agouro, mas, ao invés de arrastar correntes, faço barulhos com minha bengala. Passo pelos outros internos, fétidos e acabados, piores do que eu.

Ninguém me vigia. Ninguém me limpa. Tenho sorte de ter conseguido manter minha lucidez e minhas capacidades motoras durante tanto tempo. Se fosse depender das enfermeiras, na certa já teria tentado encontrar com Judy Garland pelo menos uma dúzia de vezes a cada mês. Não seria impedido por ninguém, tenho plena certeza disso. No entanto, nunca mais tentei. Acho que o medo de uma segunda falha talvez seja um dos motivos. Não aguentaria ter cicatrizes sobre cicatrizes; lembranças postas acima de outras lembranças, me perturbando mais e com maior intensidade. Seria permanentemente infeliz, se fosse frustrado. Preferia não arriscar uma possibilidade de erro.

Então tudo o que faço é esperar, sentado sobre essas escadas, até o dia que ela chegar. Eu já até sei: virá cantando somewhere over the rainbow, com feno nos cabelos e aquele olhar que nem mesmo os tons de sépia conseguem apagar. Terá Totó ao seu lado e sorrirá, e eu poderei ver esse sorriso. E ela me roubará a vitalidade, mas eu não me importarei. Darei a ela de bom grado, apenas para ver aquele sorriso ainda mais iluminado e aqueles cabelos vermelhos ainda mais brilhantes. Virá com seus sapatinhos de rubi, e me dará a mão, Totó em seu colo, e dirá ‘não há lugar como o lar’ três vezes seguidas, batendo os calcanhares, olhos fechados em desejo sincero. Então levitaremos, longe das vistas daqueles que enxergam. E estarei feliz, pois sei que ninguém dará pela minha falta, talvez apenas os velhos do corredor, perguntando onde está o barulho da bengala. Eles não saberão, mas depois se acostumarão com o silêncio da manhã, como sempre foi e deveria ser antes de mim. Eu estarei longe, observando-os, deitado na minha cama de nuvens brancas, sorrindo com o brilho do sol refletindo em minhas córneas completamente límpidas, brincando de malabares com as estrelas. Estarei feliz, e passarei as pontas de meus dedos sobre meus pulsos, e as cicatrizes não estarão mais ali. Pois eu fui perdoado por minha tentativa antecipada, a morte sabe ser boa quando quer. E eu serei feliz, sei que irei. É nisso que penso, dia após dia. Penso em ser feliz. Penso que no fim tudo isso valerá a pena. Tudo tem um propósito, já ouvi alguém dizer. No fim, tudo aquilo que vivemos terá sua compensação.

Mãos tocam meu ombro. Sinto o cheiro de alfazema misturado com molho de carne de dona Fernanda.

“Vamos comer alguma coisa?”, ela me pergunta. Sei que ela está sorrindo.

“Vamos.”

Acho que ela não sabe meu nome. Nunca me chamou pelo nome, mas que importa isso? Levanto com dificuldade, sustentando-me nos braços dela, tão fracos quanto os meus, mas mais resistentes de tanto mexer em panela com colher de pau. Volto pela escadaria que subi, sentindo o cheiro de pão quente e café recém-coado. Maravilha.